Aberrações de quem planta e colhe

Meu pai plantava e colhia milho. Eu o via usando força para, num golpe, quebrar e arrancar a espiga do pé. Ele parecia tão rude e suas mãos tão fortes! Essa imagem, entretanto, contrastava com a gentileza com que ele lidava com a pequena muda. Na verdade, ele compreendeu que cada situação exigia dele uma postura. Sem perceber, deixou para mim uma preciosa lição.

À semelhança do campo, temos funções distintas no reino, que demandam de nós os mais variados esforços, e despertam os mais diferentes sentimentos. É preciso postura. Sem ela temos roubada de nós a oportunidade de sermos abençoados, simplesmente por nos esquecermos de quem somos. A seara não é nossa. A glória também não.

Aos que colhem, é preciso o cuidado com a independência e o orgulho. Estes sentimentos surgem naturalmente, afinal, é fácil ao atacante vangloriar-se por fazer gols e desconsiderar todo o trabalho da equipe. Quando nos rendemos a eles, somos impedidos de crescer. A seara é grande e “sem Ele nada podemos fazer”. Precisamos uns dos outros. O fato de termos cumprido o nosso papel, não deve nos levar a prática leviana da política da “terra arrasada”. Devemos colher com cuidado, para que a terra continue a produzir. A vida não é apenas colheita, e só se tivermos aprendido a ver além, entenderemos que a sustentabilidade se aplica não só ao meio ambiente, mas também a relacionamentos, família e ao crescimento das igrejas.

Aos que plantam, a atenção deve se redobrar para a inveja. Sentimento comum a ponto de se indignar com os que colhem, embora este seja exatamente o objetivo da equipe. Desejam o reconhecimento. Lembro-me de um pastor no interior de Goiás que batizava muitos e, anualmente, perdia os mais talentosos para as igrejas da capital, porque iam à procura de estudos e trabalho. Quanto melhor o seu trabalho, mais ele “perdia”.

E ainda tem aquele que nem planta, nem colhe, mas ainda sente orgulho ou indignação, quando é, na verdade, apenas um vigia de armazém. A coisa fica ainda mais feia quando um começa “bater” no outro, o que,  infelizmente, ocorre com muita frequência.

Pior que tudo, imagino, é  o motivo: um sentimento inapropriado de propriedade, apenas porque plantou, colheu ou simplesmente porque o milho está temporariamente em seu armazém, mesmo sabendo que não teve qualquer poder sobre o milagre do crescimento.

Precisamos ser lembrados que nem “o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento”.

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