A destruidora de heróis

O orgulho tem um viés positivo, relacionado à auto-estima, cuja expressão é a coragem, mas tem também um viés negativo, cuja expressão é a arrogância, quando a pessoa passa a se sentir superior aos outros.

Irmã da vaidade, ela endurece a mente e impede o crescimento pessoal. Esse vírus contagia todo o ser, mas afeta inicialmente os olhos e o ouvido e termina comprometendo todo o sistema de aprendizagem. Salomão, o sábio, estudou o caso e concluiu: “Tens visto o homem que é sábio a seus próprios olhos? Pode-se esperar mais do tolo do que dele”. (Provérbios 26:12). E, pior, não há sinais de que está sendo controlado, mas está em franca expansão (2 Timóteo 3:1-2). Nem mesmo as igrejas estão inumes. A de Laodiceia, por exemplo, não escapou: “Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu”; (Apocalipse 3:17-18)

O caso é tão grave que se tornou o assunto mais sério já tratado na Bíblia. Deus declarou guerra aberta ao soberbo: “Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes”. (Tiago 4:6). Houve um comentarista, Manton,  que chegou a dizer que “outros pecados são contra as leis de Deus, mas o orgulho é contra a soberania de Deus. Orgulho não é só retirar o coração de Deus, mas levantar-se contra Deus”. Por isso é relacionado ao surgimento do Inimigo de Deus.

Embora ainda estejam estudando a ação desse vírus, está provado que ele se dissipa com maior facilidade onde há sucesso, vitória e prosperidade. Isso é paradoxal porque, normalmente, os vírus se propagam nas formas de fraquezas. No caso da arrogância, entretanto, pode-se parafrasear o apóstolo Paulo: “Quando estou forte então sou fraco”.

Um tipo de vacina em três doses vem sendo aplicada com sucesso há muitos anos:

1)  Reconheça que você precisa de muita ajuda  (Lucas 12:15-21). Essa atitude de “nem Deus afunda este navio” não tem dado certo. Somos muito vulneráveis. Reconhecer a pecabilidade é o primeiro passo.

2) Peça ajuda (Lucas 23:39-43). Isso mesmo, faça orações. Parece que deixar de orar está sendo visto nos céus como um sinal de arrogância, um tipo de protesto contra o Criador, uma tentativa de colocar luzes sobre nossa autonomia. Deus quer que façamos pedidos a Ele, muitos pedidos. (Lucas 18:13)

3) Aceite ajuda, nos termos da ajuda (Filipenses 2:1-11).  A arrogância é tão letal exatamente por sua tríplice e sucessiva ação: se 10% reconhecem a pecabilidade, metade desses não consegue clamar por ajuda e outra metade não aceita os termos da ajuda, por ser simples demais ou difícil demais.

Um caso emblemático é Naamã, um general sírio que, mesmo reconhecendo sua grande miséria e tendo solicitado ajuda, por pouco não morreu leproso.  Quando o profeta mandou um recado para que ele mergulhasse sete vezes no rio Jordão, Naamã achou aquilo ofensivo, especialmente para alguém importante como ele.

Como a vitória contra a arrogância ocorre fora do âmbito do merecimento pessoal e, portanto, rara, poucos conhecem o contentamento resultante dessa graça. O mesmo Deus que se apresenta muito inimigo do soberbo, se apresenta ainda mais amigo do humilde. É o que a Bíblia quer dizer com “onde o pecado abundou, superabundou a graça” (Romanos 5:20). Depois de ser completamente curado, Naamã fez um reconhecimento comovente. Ele voltou ao profeta, com toda a sua comitiva, pôs-se diante dele, e disse: Eis que agora sei que em toda a terra não há Deus senão em Israel (2 Reis 5:15).

P.S. Agradeço sugestões que melhorem este texto.

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Somos devedores

Quando observo as curtidas em uma foto da família, quando vejo as pequenas mensagens no celular – curtas, visivelmente para não incomodar -, quando faço minhas orações e, então, sou lembrado de tantos que passaram pela minha vida e me abençoaram, então percebo que sou rico e um grande devedor.

Nunca conseguiremos pagar ou devolver o que recebemos. Somos cercados por uma nuvem de amigos e  vemos apenas uma parte dela. Como as nuvens, os amigos são um mundo maior e mais denso que percebemos.  E isso não está relacionado a merecimentos; é um tipo de graça de Deus.  Claro que podemos prestar mais serviços, podemos nos esforçar para ser uma inspiração e podemos orar a Deus por eles.

Somos muito frágeis. Que seria de nossa vida sem as pessoas que nos amam?

Consequência da fidelidade

Não creio em azar, mas que tem gente que tudo que coloca a mão dá errado, isso tem. E sabe de uma coisa? Isso não é relacionado, apenas, a ser espiritual ou não. Estou falando de consequência de curto prazo, coisa de dias ou de anos. As vantagens dos crentes são certas e melhores, mas podem demorar muito. Além do mais, aquele que confia pode discernir que o seu sofrimento é passageiro e que algo melhor o aguarda.

Existe uma lei da vida que faz retornar para as pessoas conforme suas atitudes. O liberal, por exemplo, acaba se dando bem e o mesquinho se dando mal. Aquele que é fiel acaba ficando com tudo e o infiel se arrebenta. Não é necessário uma bola de cristal para prever a desgraça daquele que trai, engana, leva vantagem com prejuízo do outro, é ingrato etc…

Por outro lado, parece que tem um anjo que cuida do fiel. E ele dá muitas gargalhadas das trapalhadas do infiel. Bem que já disse alguém: “cuida da tua integridade, que Deus cuida da tua reputação”.

Conheço gente fiel, íntegra, de boa fé, leal. Não estou falando apenas de relacionamento conjugal. Penso que quem é fiel…é fiel, e pronto. Sabe aquela pessoa que você pode aceitar a proposta dela, mesmo parecendo uma proposta ruim? Você nunca toma prejuízo com ela.

“Quando ele dizia assim: Os salpicados serão o teu salário; então todos os rebanhos davam salpicados. E quando ele dizia assim: Os listrados serão o teu salário, então todos os rebanhos davam listrados”. (Gênesis 31:8)

Azar não existe, mas não quero ficar perto de infiéis.

Abandonar, conservar e conquistar

O fato é que gastamos nossas energias naquilo que nunca poderemos ter ou, mesmo que o consigamos, não o poderemos manter. “Por que gastais o dinheiro naquilo que não é pão? E o produto do vosso trabalho naquilo que não pode satisfazer? Ouvi-me atentamente, e comei o que é bom, e a vossa alma se deleite com a gordura.” (Isaías 55:2)

Algumas coisas, mesmo disponíveis, precisam ser renunciadas, mesmo que sejam desejadas. João Batista disse a Herodes, que queria ficar com a cunhada: “Não te é lícito possuí-la”. Muitas vezes temos que abrir mão, desapegar.

Por outro lado, perdemos a oportunidade de conservar, de consolidar o bom que já temos. Como o filho pródigo, deixamos o conforto e a segurança de nossa casa, de uma amizade sincera, de uma vida devocional que aquece nossas almas. Diz o Senhor: “Tenho, porém, contra ti que deixaste o teu primeiro amor”. (Apocalipse 2:4)

Enfim, deixamos de conquistar ou garantir o que já nos é possível. Recusamos ou postergamos o que é precioso e que pode fazer nossa vida mais rica: uma pessoa que nos ama e espera ser correspondida, um bom trabalho – porque a remuneração inicial não é atraente – ou a leitura de um bom livro parado na estande.

Jim Eliot entendeu isso: “Não é tolo nenhum aquele que dá o que não pode conservar, para ganhar aquilo que não pode perder”. Então, não nos enganemos, enquanto prosseguimos para o alvo, vamos deixar de correr atrás do vento, vamos restaurar e conservar o que já temos de bom e garantir o que não podemos perder.